Aparecida é amplamente reconhecida como a Capital Mariana da Fé, sendo o lar da venerada imagem de Nossa Senhora Aparecida, a Padroeira do Brasil. No entanto, poucos se detêm a refletir sobre como uma cidade que reverencia uma santa negra, encontrada por pescadores negros, conseguiu apagar os quilombos de sua própria história. Este apagamento é um tema que diversas instituições estão se esforçando para reverter.
A Santa Negra encontrada por negros, em terra de negros
Em 1717, três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso, todos negros e de origem humilde, lançaram suas redes no Rio Paraíba do Sul e descobriram uma imagem fragmentada de Nossa Senhora da Conceição. Essa imagem, que era negra por sua confecção e pelo tempo que passou nas águas, foi encontrada por homens negros, e a primeira capela foi erguida por escravizados. As primeiras festividades em honra à santa foram organizadas pelas Irmandades de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que representavam as únicas formas de organização social permitidas aos negros na época.
A história da cidade de Aparecida, portanto, é intrinsecamente ligada à cultura negra. Contudo, ao longo do tempo, essa narrativa foi gradualmente embranquecida, apagando as contribuições e a presença da população negra na construção da identidade local.
O Vale do Paraíba era um território quilombola
O que muitos guias turísticos não mencionam é que todo o Vale do Paraíba, abrangendo regiões de Cunha a Aparecida, de Guaratinguetá a Lorena, foi um importante corredor de quilombos. Enquanto a produção de café enriquecia os barões escravocratas, centenas de africanos fugiam para as matas da Serra da Mantiqueira e da Serra da Bocaina, formando comunidades quilombolas como o Quilombo do Jaguari e o Quilombo da Serra, além de outras localizadas em Roseira, Potim e dentro do próprio território de Aparecida.
Esses quilombos não serviam apenas como refúgios, mas eram também sistemas políticos, econômicos e espirituais. Os quilombolas cultivavam, rezavam, tocavam seus tambores e mantinham viva a conexão com suas raízes africanas. No entanto, à medida que a Basílica crescia e a cidade se organizava para receber romeiros, esses territórios foram sendo empurrados, desapropriados e invisibilizados. Aparecida se tornou uma vitrine da fé, mas ocultou aqueles que sustentaram essa fé com seu corpo e seu sangue.
Como o apagamento acontece hoje
O apagamento da história quilombola em Aparecida não é um fenômeno do passado, mas se manifesta de várias formas atualmente:
- Apagamento Religioso: A imagem de Nossa Senhora é frequentemente representada como branca nas lembranças e produtos vendidos no comércio local. As festividades em honra a São Benedito e as Congadas, que representam a expressão mais autêntica da fé negra em Aparecida, são relegadas a um segundo plano, enquanto a festa oficial recebe toda a estrutura e visibilidade.
- Apagamento Cultural e Turístico: A Rota do Romeiro, que passa por locais icônicos como a Basílica e o Morro do Cruzeiro, ignora o Largo de São Benedito e a rica história dos Congadeiros e Moçambiqueiros. A cidade carece de um Museu do Quilombo ou da Diáspora Africana, apesar de sua história estar profundamente enraizada nesse contexto.
- Apagamento Educacional: Nas escolas de Aparecida, as crianças aprendem sobre a pesca milagrosa, mas não são informadas sobre a identidade negra dos pescadores e a existência de quilombos na região. A Lei 10.639/03, que determina o ensino da história afro-brasileira, ainda não se concretizou como uma política pública efetiva no município.
- Apagamento Político e Orçamentário: Antes da criação do COMPIR, não havia um Conselho de Igualdade Racial, e as políticas voltadas para a população negra careciam de orçamento, secretaria e voz. A população negra de Aparecida, que desempenha papéis fundamentais na cidade, não estava representada nas decisões que a afetavam.
Por que falar de Quilombo na Casa da Mãe Negra é revolução
Resgatar a história dos quilombos em Aparecida não é uma tentativa de dividir a fé, mas sim de completá-la. É um convite ao romeiro para reconhecer que a Mãe Negra que ele venera é também a mãe dos que foram escravizados e que resistiram. O COMPIR, em parceria com a Secretaria de Cultura, organizou uma Roda de Conversa sobre a Diáspora Africana e a Participação dos Povos Originários, destacando a importância de retomar o território e a memória.
Quando falamos sobre quilombos em Aparecida, estamos propondo:
- Mapear e reconhecer oficialmente as comunidades quilombolas e de matriz africana do município;
- Criar a Rota Turística Afro-Indígena-Católica, ligando a Basílica ao Monumento de São Benedito, ao Rio Paraíba do Sul e à Casa das Congadas;
- Transformar a Festa de São Benedito em um Patrimônio Central da cidade, com orçamento equiparado ao da Festa da Padroeira;
- Assegurar o ensino da história dos quilombos do Vale do Paraíba nas escolas;
- Que a Basílica e o comércio religioso reconheçam que Nossa Senhora Aparecida é negra e que sua casa é um Quilombo de Fé.
Aparecida não pode ser apenas a Capital Mariana da Fé. É necessário que se torne também a Capital da Fé Antirracista. Uma cidade que recebe milhões de visitantes anualmente não pode continuar a ocultar suas origens, que estão ligadas a uma santa negra encontrada por pescadores negros em um rio que abrigava quilombos.
A Mãe Negra não se limita ao espaço da Basílica. Ela se manifesta nas Congadas, no tambor do Moçambique, na coroa do Rei e da Rainha do Congo, e no rosto do povo preto que sustenta a cidade. Reaquilombar Aparecida é, portanto, um ato de devolver a Casa da Mãe aos seus verdadeiros filhos e filhas.
Claudinei Corrêa
Presidente do COMPIR Aparecida-SP
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