Uma nova alternativa para o tratamento da doença de Alzheimer começou a ser oferecida no Brasil. Comercializado com o nome Leqembi, o lecanemabe atua sobre as placas de proteína beta-amiloide acumuladas no cérebro e pode retardar parte do declínio cognitivo em pacientes que estejam nos estágios iniciais da doença.

Diferentemente de medicamentos que apenas controlam alguns sintomas, o lecanemabe procura interferir em um dos processos biológicos associados ao Alzheimer. Entretanto, o tratamento não representa uma cura, não recupera capacidades já perdidas e não é indicado para todas as pessoas com demência.

O registro brasileiro foi concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 22 de dezembro de 2025. A indicação aprovada contempla adultos com comprometimento cognitivo leve ou demência leve causada pelo Alzheimer, desde que exista confirmação da presença da proteína beta-amiloide no cérebro.

Como o medicamento funciona

O lecanemabe é um anticorpo monoclonal desenvolvido para se ligar a agregados da proteína beta-amiloide. Essa ação auxilia o organismo a reduzir as placas presentes no cérebro, consideradas uma das características biológicas da doença de Alzheimer.

Na apresentação registrada no Brasil, o medicamento é administrado por infusão intravenosa, e não por meio de uma aplicação semelhante a uma vacina comum. Segundo a Anvisa, a dose recomendada é de 10 miligramas por quilo de peso, aplicada durante aproximadamente uma hora, uma vez a cada duas semanas.

Por depender de infusão, acompanhamento clínico e exames de monitoramento, o tratamento deve ser realizado em centros especializados, após prescrição e avaliação de um neurologista ou de outro médico capacitado.

Estudo apontou redução de 27% no declínio clínico

A eficácia do medicamento foi avaliada no estudo clínico de fase 3 Clarity AD, que acompanhou 1.795 participantes com Alzheimer em estágio inicial durante 18 meses.

Os resultados mostraram uma redução relativa de aproximadamente 27% na progressão do declínio clínico em comparação com o grupo que recebeu placebo. Isso significa que os pacientes tratados continuaram apresentando avanço da doença, porém em ritmo mais lento durante o período estudado.

A diferença observada foi medida pela escala CDR-SB, utilizada para avaliar memória, orientação, capacidade de julgamento, atividades domésticas, vida social e autonomia. Portanto, o percentual não significa que o medicamento recupere 27% da memória ou interrompa completamente o Alzheimer.

Tratamento não é indicado para todos

Para receber o lecanemabe, o paciente precisa apresentar sintomas iniciais e ter a presença de placas beta-amiloides confirmada por exames. Pessoas em fases moderadas ou avançadas da doença não fazem parte da indicação aprovada.

A autorização brasileira também considera o perfil genético relacionado ao alelo ApoE ε4. Conforme a Anvisa, o medicamento é indicado para pacientes que não sejam portadores ou que possuam apenas uma cópia desse alelo. Pessoas com duas cópias apresentam risco maior de determinadas complicações.

Risco de inchaço e sangramentos cerebrais

Entre os principais riscos estão as chamadas anormalidades de imagem relacionadas ao amiloide, conhecidas pela sigla ARIA. Essas alterações podem envolver inchaço temporário e pequenos sangramentos no cérebro.

Algumas ocorrências não provocam sintomas, mas outras podem causar dor de cabeça, confusão mental, tontura, alterações visuais, náusea ou dificuldade para caminhar. Também podem ocorrer reações durante a infusão.

Por esse motivo, o tratamento exige exames de ressonância magnética antes e durante o uso, além de avaliação cuidadosa sobre medicamentos anticoagulantes, histórico neurológico e características genéticas do paciente.

Custo elevado limita o acesso

O preço é um dos principais obstáculos para a ampliação do tratamento. Reportagens publicadas após a definição dos valores pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) apontaram custo mensal entre R$ 8.108,94 e R$ 11.075,62, dependendo da tributação aplicável.

O valor considera principalmente o medicamento. Consultas, exames para confirmação do diagnóstico, testes genéticos, ressonâncias magnéticas, estrutura para infusão e acompanhamento especializado podem elevar o custo total.

Por se tratar de um tratamento de alta complexidade, o paciente não deve comprar ou utilizar o produto sem orientação. A indicação precisa considerar os possíveis benefícios, os riscos e as condições clínicas individuais.

Avanço científico exige expectativa realista

A chegada do lecanemabe representa uma mudança importante na abordagem do Alzheimer por atuar diretamente sobre um mecanismo associado à doença. Ainda assim, especialistas alertam que seus benefícios são moderados e se restringem a um grupo específico de pacientes diagnosticados precocemente.

O medicamento não substitui o acompanhamento médico, os cuidados familiares, a prática de atividades adequadas, o controle de doenças cardiovasculares e o suporte oferecido às pessoas que convivem com o Alzheimer.

Entenda o tratamento

  • Nome comercial: Leqembi;
  • Princípio ativo: lecanemabe;
  • Indicação: Alzheimer em estágio inicial;
  • Administração: infusão intravenosa;
  • Frequência: uma vez a cada duas semanas;
  • Resultado: pode retardar o declínio, mas não cura a doença;
  • Monitoramento: avaliação especializada e ressonâncias magnéticas;
  • Principal risco: inchaço ou pequenos sangramentos cerebrais.

Fontes consultadas